Um ponto de viragem na regulação ESG europeia
Em julho de 2025 as instituições europeias devem votar mudanças de grande alcance na CSRD, na EU Taxonomy e noutros instrumentos relacionados — reunidas na chamada proposta OMNIBUS. O objetivo declarado: simplificar. Mas a tendência global da sustentabilidade conta uma história mais subtil: os frameworks estão a evoluir — não a recuar.
As atualizações mais importantes num relance
1. ESRS: menos data points, prioridades mais claras
- EFRAG propõe cortar mais de 50% dos data points obrigatórios.
- Análise de dupla materialidade simplificada, com lógica mais clara e menos níveis de scoring.
- ESRS E1 (clima) está a ser alinhado com as fronteiras do reporting financeiro (abordagem «financial-control»).
- Introdução de orientação não vinculativa para áreas temáticas voluntárias.
- Layouts de reporting flexíveis, incluindo executive summaries e anexos.
2. EU Taxonomy: alívio direcionado para as empresas
- Sem obrigação de reporting para atividades não materiais (<10% do volume de negócios, CapEx ou OpEx).
- Empresas não financeiras ficam isentas do CapEx Taxonomy alignment para atividades non-core.
- Empresas financeiras podem adiar os KPIs Taxonomy detalhados durante dois anos.
- Templates padronizados e profundidade de dados reduzida (–64% para empresas, –89% para atores financeiros).
- Critérios DNSH simplificados para poluentes e químicos.
3. CBAM: Parlamento e Conselho chegaram a acordo
- Responsabilidades mais claras para importadores e traders.
- Relatórios de emissões e processos de registo simplificados.
- Integração mais estreita com o EU Emissions Trading System (ETS).
- A implementação do CBAM continua dentro do calendário — lançamento completo em 2026.
4. Limiares CSRD: uma nova categoria «mid-cap» em discussão
No âmbito da discussão sobre a diretiva EU Omnibus, vários grupos políticos no Parlamento Europeu propuseram alterações aos limiares atuais da CSRD. Estas propostas contrastam claramente com as posições do Conselho da UE (1.000 colaboradores / 450 milhões de euros de volume de negócios) e do grupo conservador EPP (3.000 colaboradores / 450 milhões de euros de volume de negócios).
Para aliviar as PMEs preservando a transparência, os Sociais-Democratas (S&D), os Verdes (The Greens/EFA) e Renew Europe propõem uma nova categoria «mid-cap» com obrigações de reporting simplificadas:
Renew Europe sugere que empresas com 500–1.000 colaboradores reportem segundo padrões simplificados (S-ESRS) — com auditoria introduzida progressivamente ao longo de cinco anos. O ESRS Set 1 completo não seria exigido. O grupo S&D propõe que empresas com 250–500 colaboradores também beneficiem de requisitos simplificados — mas com auditoria desde o primeiro dia.
Em ambas as propostas o limiar de volume de negócios mantém-se em 50 milhões de euros. As empresas que ultrapassem tanto o limiar de volume de negócios como o respetivo limiar de colaboradores continuam a ter de aplicar o ESRS Set 1 completo.
O Parlamento pretende fixar a sua posição até outubro de 2025. As negociações de trílogo entre Parlamento, Conselho e Comissão estão previstas para novembro e dezembro de 2025. O resultado está em aberto.
5. Preocupações dos investidores: simplificar não pode tornar-se diluir
- Associações como a EFAMA e a Eurosif alertam contra o enfraquecimento excessivo da CSRD.
- Sublinham a importância da dupla materialidade e da comparabilidade dos dados.
- Uma disclosure ESG sólida é essencial para financiar a transformação da Europa.
Relevância estratégica: o ESG não está a perder momentum
Enquanto a UE debate limiares e formatos, outras regiões avançam:
- A Austrália está a lançar uma taxonomia para finanças sustentáveis.
- A Espanha está a introduzir contabilidade de carbono obrigatória.
- A Dinamarca está a ligar os riscos ESG às decisões de crédito através de uma nova lei bancária.
- 35 países estão a trabalhar no alinhamento ISSB (IFRS Foundation).
No setor bancário, o reporting do risco ESG evolui muito para além da compliance. A European Banking Authority e o Comité de Basileia esperam que os riscos climáticos estejam firmemente integrados na governance do risco — incluindo em instituições mais pequenas.
O que significa isto para as empresas?
- O reporting ESRS está a ficar mais leve — mas não opcional.
- Os frameworks ESG globais estão a convergir.
- A sustentabilidade continua a ser uma alavanca estratégica de resiliência e competitividade.
Em síntese: porque é que um ESG proativo continua a ganhar
A proposta OMNIBUS representa pragmatismo — não recuo. Quem espera uma pausa total no reporting ESG deve repensar. É antes o momento de:
- Construir sistemas de reporting inteligentes e escaláveis que cresçam com os requisitos futuros.
- Alinhar-se cedo com os padrões globais, para evitar disrupções tardias.
- Manter a credibilidade junto de investidores, reguladores e clientes.
Simplificar — sim. Mas simplificar com um plano. A longo prazo, as empresas que hoje levam o ESG a sério serão as front-runners de amanhã.

