Enquanto a sustentabilidade continua a dominar as agendas dos boards, uma verdade decisiva sobe ao palco: a natureza não é um tema secundário — é a base da economia global. Embora as alterações climáticas estejam (com razão) sob holofotes há anos, a perda de biodiversidade está rapidamente a tornar-se uma ameaça igualmente séria à estabilidade económica, à resiliência empresarial e à criação de valor a longo prazo.

Quando falamos de clima e sustentabilidade, focamo-nos muitas vezes nas emissões. Mas o quadro é maior. Temos de falar sobre o quão imensamente importantes são os ecossistemas intactos e a biodiversidade próspera para a nossa economia e para as empresas em todos os setores.

Este artigo olha para as dependências reais da economia alemã e internacional face a ecossistemas intactos e fornece insights e dados práticos para que empresas, investidores e decisores percebam o que está em jogo.

Porque é que a biodiversidade é um tema económico

Os ecossistemas entregam serviços que sustentam toda a indústria: solos férteis, água limpa, polinização, sequestro de carbono, controlo natural de doenças e regulação climática. Segundo o World Economic Forum, mais de 50% do PIB global — cerca de 44 biliões de dólares — depende moderada ou fortemente da natureza.

Por outras palavras: se os ecossistemas colapsam, colapsa também o nosso sistema económico.

Exemplos-chave:

  • A agricultura depende de polinizadores, da biodiversidade do solo e dos ciclos da água. O seu declínio afeta as colheitas e a segurança alimentar.
  • A farmacêutica assenta na diversidade genética: mais de 50% de todos os medicamentos derivam de compostos naturais.
  • A construção e infraestruturas precisam de madeira, minerais e proteção contra erosão fornecidos por sistemas naturais.
  • O turismo colapsa quando os destinos com biodiversidade se degradam.

A perspetiva alemã: alta exposição, risco crescente

A Alemanha — uma das principais nações industriais do mundo — é simultaneamente beneficiária e impulsionadora dos impactos sobre a biodiversidade. Estudos da Agência Federal para a Conservação da Natureza (BfN) e do Deutsche Bundesbank mostram:

  • 70% dos ecossistemas naturais alemães estão num «estado de conservação desfavorável ou pobre».
  • Quase um terço das espécies nativas está ameaçada ou em risco.
  • Os setores fortemente exportadores como o químico, automóvel e a indústria de máquinas estão vulneráveis a disrupções da cadeia de abastecimento provocadas pela biodiversidade.
  • O setor agroalimentar, com mais de 200 mil milhões de euros de volume, está fortemente exposto à perda de polinizadores e à degradação dos solos.

O Banco Central Europeu (BCE) alerta que mais de 75% dos empréstimos a empresas na zona euro são concedidos a empresas com dependências ou impactos sobre a biodiversidade. Isso transforma a perda de biodiversidade não apenas num problema ecológico, mas num risco financeiro sistémico.

Riscos de biodiversidade para as empresas: ocultos, mas crescentes

A Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) definiu três canais principais pelos quais as empresas estão expostas a riscos de biodiversidade:

  1. Riscos físicos: a perda de serviços de ecossistemas (p. ex. proteção contra cheias, polinização) leva a disrupções operacionais ou à subida de custos.
  2. Riscos de transição: alterações regulatórias como restrições ao uso do solo ou impostos sobre a natureza afetam modelos de negócio.
  3. Riscos reputacionais: críticas públicas ou mudanças de consumo em resposta a danos ambientais.

Exemplo real: em 2022, o grupo alimentar francês Danone foi alvo de críticas dos acionistas pelo impacto das embalagens de plástico nos ecossistemas marinhos. Os investidores estão cada vez mais a escrutinar as disclosures das empresas relacionadas com a natureza.

Dependências internacionais: um tema de cadeia de abastecimento global

A biodiversidade é um ativo global, mas muitas das indústrias que dela dependem operam em cadeias de abastecimento transfronteiriças. Insights internacionais importantes:

  • O cacau, central para a indústria do chocolate, cresce em florestas tropicais ricas em biodiversidade — hoje ameaçadas pela desflorestação.
  • A indústria da moda abastece-se de algodão, couro e viscose em regiões sob crescente stress ecológico.
  • A produção eletrónica depende de terras raras, extraídas em zonas ecologicamente sensíveis.

A perda de biodiversidade num país pode ter consequências globais — através de fornecimentos disruptados, custos a subir ou stranded assets.

O papel da finança: direcionar capital para a natureza

O financiamento é uma alavanca poderosa para travar a perda de biodiversidade. Até 2025, a Alemanha comprometeu 1,5 mil milhões de euros por ano para finança internacional da biodiversidade. A nível global, o Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework (adotado em 2022) pressiona governos e instituições financeiras a redirecionar subsídios e investimento para fora de atividades que degradam a natureza.

O Sustainable Finance Advisory Council (o órgão consultivo oficial do governo federal alemão) defende:

  • Integração dos riscos de biodiversidade nos ESG assessments e nos modelos de risco de crédito.
  • Desenvolvimento de produtos financeiros baseados na natureza.
  • Disclosures empresariais obrigatórias segundo as recomendações da TNFD.

Exemplos de liderança empresarial

Algumas empresas alemãs e europeias já estão a agir:

  • O BMW Group integrou a biodiversidade no planeamento dos seus locais de produção e reduziu a impermeabilização do solo.
  • A Vaude, marca de vestuário outdoor, trabalha com a «Biodiversity in Good Company Initiative» em políticas de cadeia de abastecimento focadas na natureza.
  • A Allianz está a desenvolver processos de screening de investimento sensíveis à biodiversidade.

Estes front-runners mostram: a biodiversidade pode ser gerida estrategicamente — e pode mesmo tornar-se uma vantagem competitiva.

Em síntese: porque é que a biodiversidade interessa a todas as empresas

Ignorar a biodiversidade já não é uma opção. Sejas fabricante, retalhista, empresa de software ou investidor — o teu negócio depende, direta ou indiretamente, de ecossistemas funcionais. A boa notícia: surgem todos os dias novos frameworks, ferramentas e best practices que ajudam.

A biodiversidade é o próximo tema ESG material. As empresas que agem agora estão:

  • Mais bem preparadas para a regulação.
  • Mais atrativas para clientes e investidores.
  • Menos expostas a riscos operacionais e de cadeia de abastecimento.

Proteger a natureza não é apenas bom para o planeta — é um bom negócio.